A vacina que previne 7 cânceres: a imunização contra o HPV no Brasil
Por Iriana Custodia Koch, diretora da AMUCC
Imagine uma só vacina capaz de erradicar sete tipos de câncer. Uma prevenção segura, já disponível, acessível e com o potencial de evitar mais de 7.000 mortes por ano no Brasil. Essa vacina existe e está ao alcance da população pelo SUS: a vacina contra o HPV.
A desinformação tem sido um dos maiores inimigos da saúde pública, especialmente quando o assunto é imunização. No entanto, a ciência apresenta uma realidade transformadora: a vacina contra o Papilomavírus Humano (HPV) não é apenas uma proteção contra uma infecção comum, mas um escudo essencial na prevenção de múltiplas malignidades.
Este artigo desvenda a importância dessa imunização, desmistificando mitos e apresentando o panorama de uma doença que já deveria ter sido erradicada no mundo, pois já existe, há mais de 15 anos, uma vacina que previne 90% dos casos, mas que ainda mata 7.000 mulheres por ano no Brasil, na sua maioria na faixa etária de menos de 35 anos.
HPV: o inimigo silencioso e seus danos
O HPV é um vírus traiçoeiro. Comum e altamente transmissível, estima-se que a maioria das pessoas será infectada por ele em algum momento da vida, principalmente por contato sexual direto com pele ou mucosa contaminada. Embora o organismo consiga combater o vírus em muitos casos, em outros, o HPV persiste e pode desencadear problemas de saúde graves.
Dos mais de 200 tipos de HPV existentes, alguns são classificados como de “alto risco” por sua capacidade de causar câncer. Os subtipos 16 e 18 são os de maior potencial carcinogênico. Entre os mais conhecidos e devastadores estão:
- Câncer de colo de útero: O mais associado ao HPV, responsável por mais de 7 mil mortes de mulheres no Brasil anualmente, segundo o Instituto Oncoguia. É uma doença prevenível pela vacina.
- Câncer de ânus.
- Câncer de orofaringe (boca e garganta).
- Câncer de pênis.
- Cânceres de vagina e vulva.
Além disso, alguns tipos de HPV causam verrugas genitais.
O Portal Drauzio Varella alerta: se o sistema imunológico não eliminar o vírus, ele danifica as células da região afetada, causando mutações e proliferação desordenada. Esse processo não é instantâneo. A infecção pode ser silenciosa por anos, levando ao desenvolvimento de lesões precursoras que, sem tratamento, evoluem para o câncer.
A vacina: um escudo contra o câncer
A vacina contra o HPV representa um avanço espetacular na medicina. Ela funciona como um “instrutor” para o sistema imunológico, ensinando o corpo a reconhecer e combater os tipos mais perigosos do vírus antes mesmo da infecção. Assim, impede que o HPV se estabeleça e cause as lesões que podem evoluir para o câncer.
Sozinha, a vacina previne 90% dos cânceres relacionados ao HPV.
Essa imunização atua na prevenção primária de diversas malignidades, oferecendo proteção contra os cânceres de colo do útero, pênis, ânus, vulva, vagina e orofaringe. É uma oportunidade real de evitar milhares de mortes no Brasil anualmente.
O câncer de colo de útero é, em particular, o que mais mata mulheres até os 35 anos, com um impacto devastador na vida das pacientes, suas famílias e na economia. A conscientização e o acesso à informação são fundamentais para mudar esse cenário e aproximar o Brasil das metas globais de erradicação da doença.
Quem deve se vacinar e onde encontrar?
A vacina contra o HPV está disponível gratuitamente no SUS e também em clínicas particulares. As recomendações atuais são:
- Crianças e adolescentes de 9 a 14 anos: Desde 2024, o Brasil adotou o esquema de dose única para essa faixa etária, substituindo o modelo anterior de duas doses. A vacina é gratuita para meninos e meninas nessa idade. Essa é a idade ideal, pois a resposta imunológica é excelente e a proteção é maximizada antes do início da vida sexual.
- Adolescentes de 15 a 19 anos que nunca se vacinaram: Para ampliar a proteção, o Ministério da Saúde oferece a vacina em dose única como estratégia de resgate vacinal. Adolescentes nessa faixa etária têm até dezembro de 2025 para se vacinar gratuitamente pelo SUS.
- Grupos especiais que nunca se vacinaram: Indivíduos imunocomprometidos (como pacientes oncológicos, transplantados, portadores de HIV e aqueles em tratamento imunossupressor), vítimas de violência sexual, usuários de PrEP (profilaxia pré-exposição ao HIV) de 9 a 45 anos, e pacientes com Papilomatose Respiratória Recorrente (PRR) a partir dos 2 anos de idade, com prescrição e recomendação médica. Para esses grupos, a vacina está disponível com esquema vacinal de três doses (com intervalos de 0, 2 e 6 meses).
- Pessoas com doenças autoimunes que nunca se vacinaram: Podem receber a vacina gratuitamente pelo SUS, com prescrição e recomendação médica. Para essa condição, a vacinação é particularmente relevante para a faixa etária de 9 a 27 anos.
Pacientes em tratamento oncológico podem receber a vacina contra o HPV?
Sim, pacientes em tratamento de câncer ou que realizam imunossupressão terapêutica (como alguns transplantados ou pacientes com doenças autoimunes), com idade entre 9 e 45 anos, podem receber a vacina gratuitamente pelo SUS, sempre com recomendação e requisição médica.
É importante entender a importância dessa vacinação para esse público:
- Maior Risco: Pessoas com o sistema imunológico comprometido têm um risco elevado de desenvolver infecções persistentes por HPV, que podem evoluir mais facilmente para lesões pré-cancerígenas e câncer.
- Proteção Extra: A vacina oferece uma camada adicional de proteção para um sistema imunológico já sobrecarregado ou enfraquecido.
Em algumas localidades, como Florianópolis, o processo pode envolver o encaminhamento da requisição médica para autorização estadual. Procure a Unidade de Saúde mais próxima da sua residência munida da requisição médica, exames e documentos para efetuar o cadastramento prévio. Assim que autorizado, o posto de saúde entrará em contato para avisar que a aplicação da vacina está autorizada.
O CRIE (Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais), uma unidade pública que atende pacientes com necessidades especiais de imunização, pode agilizar o processo. Para encontrar um CRIE próximo, consulte o site do HUBCRIE ou a prefeitura da sua cidade.
Sempre consulte o médico oncologista ou imunologista para compreender o esquema vacinal mais adequado para a condição de saúde individual.
A vacina é segura? Sim, comprovadamente!
A vacina HPV é segura e eficaz. Passou por rigorosos testes antes de sua aprovação e é monitorada constantemente por agências de saúde em todo o mundo. Milhões de doses já foram aplicadas, e estudos comprovam consistentemente sua segurança e eficácia na prevenção da infecção e das doenças relacionadas ao HPV.
Os efeitos colaterais são geralmente leves e temporários, como dor, inchaço ou vermelhidão no local da injeção, ou um mal-estar passageiro. Em caso de qualquer efeito colateral, procure o posto de saúde, hospital, UPA ou seu médico.
Não abandone o rastreamento
É fundamental lembrar: a vacina é uma medida preventiva primária, mas NÃO substitui o rastreamento.
Para mulheres, o Papanicolau continua sendo essencial para detectar precocemente qualquer alteração nas células do colo do útero. E uma grande mudança está em curso: o Sistema Único de Saúde (SUS) começou a substituir gradualmente o Papanicolau pelo exame molecular de DNA-HPV.
Esta é uma notícia revolucionária: o exame de DNA-HPV oferece maior exatidão nos diagnósticos de HPV e permite um intervalo entre as coletas de até cinco anos, otimizando o rastreamento e tornando-o mais eficiente. A recomendação da AMUCC, de Papanicolau anual, está sendo atualizada com a introdução do DNA-HPV.
Ambas as estratégias – vacinação e exames de rotina (seja Papanicolau ou DNA-HPV) – são complementares e absolutamente fundamentais para a proteção completa contra o HPV e seus potenciais riscos oncológicos. Além disso, é importante o uso de preservativos, que ajudam a prevenir essas e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
Brasil avança e supera médias globais na vacinação
Com satisfação, o Brasil registra avanços significativos na vacinação contra o HPV. Em 2024, o país atingiu uma cobertura vacinal de mais de 82% entre meninas de 9 a 14 anos, superando largamente a média global de 12%, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre os meninos da mesma faixa etária, a cobertura também registrou um salto notável, alcançando 67%.
Esses números, divulgados pela UNA-SUS e Ministério da Saúde, refletem a retomada bem-sucedida do Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2023, revertendo a tendência de queda em diversas vacinas infantis. A cobertura entre meninas passou de 78,42% em 2022 para 82,83% em 2024, e entre os meninos, saltou de 45,46% para 67,26% no mesmo período, um aumento de 22% em apenas dois anos.
O alinhamento com recomendações internacionais, como a adoção da dose única, é um passo importante para atingir a meta da OMS de 90% de cobertura vacinal entre meninas até 2030, visando a eliminação do câncer de colo do útero. Desde 2014, o SUS já distribuiu mais de 75 milhões de doses, consolidando uma das políticas de vacinação mais abrangentes do mundo.
A luta contra o câncer está em nossas mãos
A vacina contra o HPV é uma prova do poder da ciência e da saúde pública. É uma ferramenta acessível e eficaz que oferece uma chance real de erradicar doenças que ainda ceifam milhares de vidas anualmente. Vacinar-se, manter o rastreamento e buscar informação de fontes confiáveis são os passos fundamentais para garantir um futuro mais saudável e livre do câncer relacionado ao HPV.
A proteção está ao seu alcance.
Nessa luta incansável pela conscientização e prevenção, a AMUCC – Amor e União Contra o Câncer está em constante campanha pela ampla vacinação contra o HPV. Com palestras educativas, divulgação nas redes sociais и a distribuição de fôlderes informativos, a AMUCC reforça seu compromisso. Além de integrar a coalizão “Cidades Contra o Câncer”, a organização se destaca com o projeto inovador “AMUCC e a Comunidade contra o HPV”, que leva informação e apoio direto a comunidades carentes da Grande Florianópolis.
É com a união e o esforço de iniciativas como as da AMUCC que construiremos um futuro livre do câncer de colo de útero e com mais saúde para todos.
Ajude a AMUCC a continuar sua missão! Sua contribuição é fundamental para mantermos nossos projetos de conscientização, educação e apoio aos pacientes na luta contra o câncer.
Faça a sua doação via PIX: Chave PIX: amucc@amucc.org.br
AMUCC: Amor e União Contra o Câncer. Juntos somos mais fortes!
As informações contidas neste artigo foram compiladas de dados e pesquisas de instituições renomadas, incluindo o Instituto Oncoguia, o Portal Drauzio Varella, a UNA-SUS, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e o Ministério da Saúde do Brasil, visando oferecer um conteúdo preciso e atualizado.
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